Em outubro de 2003, realizou-se no quarto andar do Planalto uma entrevista curiosa.

 

A estrela era o general Jorge Félix, chefe do Gabinete de Segurança Institucional.

 

Como coadjuvantes, alguns dirigentes da Abin.

 

Entre eles o então secretário de Planejamento e Coordenação da Agência, Athos Irigaray.

 

O governo decidira tonificar os poderes da Abin.

 

Convocara os repórteres porque queria desintoxicar a imagem pública da sucessora do SNI.

 

A Abin, disse o general Félix, desempenhava nobres atividades de Estado. Merecia apoio e prestígio.

 

Lero vai, lero vem foi ficando claro aos presentes que, sob Lula, desejava-se erigir uma superabin, com poderes até para requisitar à Justiça grampos telefônicos.

 

Athos Irigaray apertou nervo: "Nosso trabalho é muito legalista. Isso dificulta a atividade da Agência...”

 

Isso “...nos cria problemas em relação à velocidade de obtenção de informações..."

 

"...A agência tem sido ineficiente por agir dentro dos parâmetros legais".


Cinco anos depois de informar ao país que a lei atrapalhava a Abin, o governo do PT sente as dores que a suspeita de uma ação fora dos “parâmetros legais” pode causar.

 

A oposição (PSDB, DEM e PPS) compareceu à crise com nota acerba.

 

Chamou o grampogate de “atentado”. E Lula de “frouxo”. Decerto contam com a amnésia da platéia.

 

Ninguém gosta de lembrar, mas, sob FHC, a Abin grampeou mais e melhor.

 

O “atentado” de hoje produziu, por ora, a transcrição de uma conversa insossa do presidente do STF com um senador.

 

O “atentado” de ontem, pendurado nas manchetes de 99 como “Grampo do BNDES”, tinha áudio farto (46 fitas), diálogos apimentados e personagens mais graúdos.

 

Numa das fitas, ouve-se o próprio FHC. Pérsio Arida pergunta ao presidente se o nome dele podia ser usado na montagem de um dos consórcios que disputavam a Telebrás.

 

E FHC, peremptório: "Não tenha dúvida, não tenha dúvida." Pronto. Lá estava o presidente metido nos negócios da privatização.

 

Negócios trançados sob atmosfera de risco ("no limite da irresponsabilidade"), com linguagem vulgar ("se der m..., estamos juntos") e métodos truculentos ("temos de fazer os italianos na marra").

 

FHC teve uma reação de sub-frouxo. Deve-se à pertinácia de um grupo de jovens procuradores da República a descoberta de que o grampo do BNDES fora obra da Abin.

 

Em 2000, o Ministério Público denunciou à Justiça três agentes e dois ocupantes de cargos de chefia da Agencia.

 

A despeito disso, o general Alberto Cardoso, espécie de Jorge Félix de FHC, continuou sustentando uma versão da carochinha:

 

As fitas do BNDES, diz o general, chegaram à Abin graças a um telefonema anônimo. Foram recolhidas, veja você, debaixo de um viaduto de Brasília.

 

Tudo considerado, tem-se o seguinte flagelo: a Abin grampeava anteontem, quando ainda atendia pelo nome de SNI; grampeou ontem...

 

...E, suspeita-se agora, continua grampeando hoje. O problema, portanto, não está na existência do monstro, mas na falta de um dono.

 

O nome da encrenca não é Abin, mas Palácio do Planalto.